4 de julho de 2011

Fucking Natal Diary – Parte 7

Revelações e Abelhas

 

Duas revelações me arrebataram em Genipabú. Ambas de natureza íntima. A primeira, que só tive à noite, no hotel, quando revia as fotos do dia, diz que preciso urgente voltar a levar a corrida a sério e voltar a emagrecer. A segunda, imediata, foi a percepção do quanto as novelas que vi na juventude ficaram arraigadas na minha memória afetiva, em uma intensidade que só percebi ao escalar as dunas de Natal.

Todo mundo precisa ganhar o seu. No mundo em que vivemos, sobreviver significa faturar. Compreendo perfeitamente isso. Mas não deixa de ser um pouco incômodo o assédio aos turistas. Sou uma pessoa cordata e muitas vezes lamento isso, pensando nas oportunidades que tive de mandar alguém para a puta que pariu e não mandei. Em Natal, não chegou a isso. Claro. Todos os assédios para estacionar, fazer passeios, comprar alguma coisa estão dentro da cordialidade local. Mas a insistência tende a irritar.

Praia
Chegamos sem dificuldade à praia de Genipabú. Diante da insistência, estacionamos o carro seguindo a orientação de um rapaz cabeludo e magrelo. Mal descemos e ele nos apresentou a um sujeito que nos ofereceu passeios de buggy ou serviço de guia, para o caso de querermos ir no nosso carro. Ouvimos com atenção, declinamos com cordialidade.

O cabeludo magrelo na cola. Terminada a explanação do parceiro de negócios, nos conduziu à praia, a uma mesa, dentre as mesas coordenadas por ele e o quiosque para o qual trabalhava. Nem tivemos tempo de pensar se queríamos ficar ali ou não. Ficamos.

Havia sol, ao contrário do que a Fernanda queira se lembrar. Ali percebi o único ponto negativo de se alugar um carro. Não podia beber. Pedimos um suco cada um e uma porção de iscas de peixe. Confesso que não me acostumo com essa expressão: isca. Para mim, isca é o que se põe no anzol quando se vai pescar. Por isso, ao pedir uma porção de iscas, sempre acho que vão trazer um prato com minhocas, vermes e pedaços de pão embolorado. Paranoias minhas.

Como o sol estava bom, ao contrário do que a Fernanda queira se lembrar, resolvi entrar na água. Normal, água agradável. Cinco minutos e já estava entediado. Realmente não vejo graça em praia. Voltei para a mesa e a Fernanda perguntou como estava a água. Salgada, respondi com meu ótimo humor de quem adora ficar panguando na beira do mar. Foi a vez dela se molhar. Fiquei na mesa. Peguei a câmera e vi que ela tinha feito umas fotos minha voltando do mar.

Revelação
Chegaram os sucos. Na esteira vieram duas abelhas. Aquele sol, aquela gente irritante amontoada em baixo de guarda-sol, eu tentando evitar que as abelhas morressem afogadas no suco, me sentindo ridículo espantando as abelhas com uma camiseta, agindo entre destemido e precavido e nada da Fernanda sair da água. Puta que pariu, pensei feliz da vida.

Resolvi ver as fotos que ela tinha feito quando eu voltava do mar. Imaginei que as imagens mostrariam um James Bond, tipo Sean Connery em “O Satânico Dr. No” ou um Daniel Craig em “Cassino Royale”, talvez um Rodrigo Santoro em “As Panteras Detonando”, quem sabe, forçando um pouco, um Johnny Weissmuller em Tarzan, o Homem Macaco. Mas tudo que vi foi o Homer Simpson meio perdido, tentando lembrar onde tinha deixado a Fernanda. Veja a foto aqui à direita e diga se não é o próprio Homer. Preciso voltar a treinar sério.
 
Finalmente o amor da minha vida voltou. Bebemos, comemos e contemplamos a praia. Muito instrutivo. Depois fomos ao que me interessava. Andar e conhecer as tais dunas.

Dunas
Não dá para descrever. Confesso que de toda viagem foi o que mais gostei. As dunas de Genipabú desembocam na praia. Subimos por elas com o som do mar e o vento soprando. No alto, havia uma cerca. Aquela imagem foi foda. Na minha cabeça soava o sino das cabritas da novela Tieta, cujas cenas de mangue seco foram gravadas ali, segundo os guias regionais. Duvido, mas fingi acreditar. Escalamos, caímos, andamos. Exploramos as dunas, vimos dromedários ao longe, uma paisagem incrível, algo que nunca tínhamos visto antes.

Viajar é conhecer idiotas que falam outra língua, escreveu Rubem Fonseca. Às vezes concordo. Mas ali, naquele instante, não havia outros idiotas, além de nós mesmos. Só Fernanda e eu, dois idiotas maravilhados com o cenário. E na minha cabeça um dos temas da novela Tieta e o som das cabras e dos sinos das cabras do velho Esteves. Porra, pensei. Que força tem nossa memória afetiva.

Andamos muito por entre as dunas. Depois pegamos uma trilha e voltamos para a praia e para o carro. Já devia ser tarde, pensamos. Quando chegamos no carro percebemos que naquele dia o tempo não corria no seu tempo correto. Dava tempo para mais uma aventura. E que aventura seria.
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Assista e entenda

1 de julho de 2011

Fucking Natal Diary – Parte 6

Get your motor running
Head out on the highway
Looking for adventure
In whatever comes our way


Que alguns amigos nossos não se ofendam, mas não ter filhos numa hora dessas é uma benção. Ao longo de nossa estada por Natal vimos muitas famílias, algumas carregando as sogras (?!), inclusive. E, claro, os filhos. Desde bebês até pré-adolescentes.

Fernanda e eu, que possivelmente não teremos filhos (e precisamos de vez em quando legitimar nossa possível opção demonizando a experiência ma(pa)ternal), pensávamos no quanto aquilo tolheria nossa liberdade. Tentávamos imaginar, para aquelas famílias, qual percentual do tempo total de uma viagem como aquela seria ocupado com irritações, estresses, aporrinhações e impulsos quase incontroláveis de praticar a arte de esganar o próximo; seja o filho, o marido, ambos, a esposa, a sogra, todos ou o gerente do hotel, na falta de algo menos pessoal.

Sem falar no custo. Uma refeição nossa, com bebidas, nunca saia por mais que R$60,00. Agora coloca um triturador de comida como são os adolescentes numa equação dessas. Melhor não. Mas voltemos a falar de liberdade.

Como bons turistas corajosos, sem preguiça, tomamos o rumo do Forte dos Reis Magos, pela Via Costeira. A moça da locadora, como todos em Natal, foi muito solícita em nos explicar os caminhos que queríamos seguir. Achamos fácil. Enquanto andávamos sem pressa pelo forte, com muitos turistas, ouvimos um sujeito gritar várias vezes: “última chamada para a van do Tobinha, vamos lá pessoal!!”. Nos olhamos, Fernanda e eu, e sorrimos cúmplices e satisfeitos com nós mesmos.
 
Aquilo era exatamente do que estávamos fugindo quando alugamos o carro. Fugir das amarras de uma visita com tempo definido de duração, das amarras de andar em grupo e visitar apenas o que estava no roteiro, sem tempo de, por exemplo, fazer uma hora na praia, no quiosque e ficar a toa por ali. Principalmente, fugir de um sujeito chato nos chamando para a van do Tobinha.

Ao tirar as fotos do Forte, que desde antes de sair de São Paulo eu já sabia que queria visitar, tentava, sem sucesso, não enquadrar os turistas. Fazia um esforço para, apesar daquele monte de gente em roupas de banho, viajar na história e reviver a vida cotidiana naqueles séculos de navegações e conquistas do Novo Mundo. Um tempo perdido, quando homens podiam coçar o saco na rua sem alguma mulher chata cochichar com a amiga “que aquele ali deve estar uma semana sem lavar o saco”. Naquele tempo seria exatamente isso.
 
Aquilo me remeteu a uma pequena angústia que sinto quando penso em fazer certas viagens. Por exemplo, adoraria conhecer as pirâmides do Egito. Já me peguei imaginando eu lá, diante daquela maravilha alienígena (ou você acha que foi a Camargo Correa que levantou aquilo?), apenas eu, o deserto e o tempo; a História me contemplando e eu contemplando a História. Mas aí cai a ficha. É claro que aquilo lá deve ser apinhado de turista tirando foto, andando de um lado para outro, cercados por barracas vendendo todo tipo de coisa, de relíquias autênticas fabricadas em Taiwan, a DVDs da Ivete Sangalo. Não dá.
 
Aí desanimo de gastar os tubos, viajar não sei quantas horas de avião (que é a coisa mais chata do mundo) pra ter um monte de gente atrapalhando meu devaneio histórico.

Desencanei, esperei os argentinos, holandeses e tunisianos irem embora do forte e fiz umas fotos meio loucas, tentando derrubar a ponte e acertar um grupo barulhento de turistas. E o dia ainda estava pela metade. Dali a pouco iríamos para as dunas de Genipabú e eu mostraria para minha Fernanda-Tieta a potência de Rogério-Osnar.
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Fucking Natal Diary – Parte 5

Espaçonaves e aventura


Enxergo basicamente dois tipos de turismo: o preguiçoso e o corajoso. No primeiro, o turista é daquele tipo que paga pelos passeios manjados, city tours, coisa pra inglês ver, cercado de segurança e conforto. No segundo tipo, o sujeito se aventura pela cidade, pega ônibus se for preciso, pede informação, anda a pé, explora, descobre. Nem preciso dizer qual prefiro.

Agora me responda, se você tivesse que abrir um negócio em Natal, qualquer negócio, qual abriria? Pensou em quiosque a beira-mar, passeio de buggy nas dunas, criação de dromedário, hotel, pousada, puteiro? Esqueça. Vá para lá e abra uma gráfica.

No primeiro dia em Natal, Fernanda e eu recebemos um bombardeio de folhetos vendendo passeios de todo tipo. Uma grande variedade de lugares para visitar, duração do passeio, tipo de veículo, atividades “imperdíveis”. Só o que não variava muito eram os preços, todos salgados. Uma coisa que logo descobrimos é que não é em Natal que ficam todas as coisas que vendem como sendo em Natal. Muitas praias, passeios e pontos turísticos ficam fora da cidade, muitas vezes a quase 200km de distância.

Foi por isso que, depois de uma fria análise financeira (somada à nossa disposição em fazer turismo de coragem), decidimos alugar um carro. Por dois dias de aluguel pagaríamos o mesmo valor de um passeio de 2 horas. O carro que nos caiu na mão foi um Gol bolinha branco. Quem me conhece sabe que todo carro que dirijo por algum tempo precisa ter um nome, pois é preciso criar laços de intimidade e cumplicidade com o possante. Mesmo que seja motor 1.000.

A tradição começou com o carro no qual aprendi a dirigir, um Opala 1974, cor marrom, que meu pai possuía. Meu amigo Edinho (o cara com quem aprendi a beber, referência mundial em consumo de cerveja), ao entrar nele pela primeira vez, já com umas “cagibrinas” na cabeça, espantando pelo tamanho do bicho, não teve dúvida: “Isso parece até uma nave espacial, parece a Enterprise. É a Enterprise Caramelo”. O nome pegou e a Enterprise Caramelo nos levou a lugares onde nenhum homem (em sã consciência) teria ido.

Depois da Enterprise Caramelo, vieram outros. Raposa Negra, o gol quadrado preto de meu tio; Briosa Branca, a Brasília branca do pai do Edinho; a Barca do Inferno Celestial, uma Caravan azul do irmão do Edinho, que numa noite especial, lavada, polida e cheirosa se tornou, excepcionalmente, na Barca do Amor; Cavalo de Prata, o Kadet prata do pai do Edinho, o Black Hawnk Down ou apenas Falcão Negro, o Uno preto da Regina.

Por isso, quando sentei no cockpit do Gol branco, não tive dúvida e falei pra Fernanda: “Nega, esse é o Asa Branca. Com ele vamos voar por Natal”. Meti em alto volume um Born To Be Wild, e saí logo pegando um retorno errado pro sentido contrário.
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