Revelações e Abelhas
Duas revelações me arrebataram em Genipabú. Ambas de natureza íntima. A primeira, que só tive à noite, no hotel, quando revia as fotos do dia, diz que preciso urgente voltar a levar a corrida a sério e voltar a emagrecer. A segunda, imediata, foi a percepção do quanto as novelas que vi na juventude ficaram arraigadas na minha memória afetiva, em uma intensidade que só percebi ao escalar as dunas de Natal.
Todo mundo precisa ganhar o seu. No mundo em que vivemos, sobreviver significa faturar. Compreendo perfeitamente isso. Mas não deixa de ser um pouco incômodo o assédio aos turistas. Sou uma pessoa cordata e muitas vezes lamento isso, pensando nas oportunidades que tive de mandar alguém para a puta que pariu e não mandei. Em Natal, não chegou a isso. Claro. Todos os assédios para estacionar, fazer passeios, comprar alguma coisa estão dentro da cordialidade local. Mas a insistência tende a irritar.
Praia
Chegamos sem dificuldade à praia de Genipabú. Diante da insistência, estacionamos o carro seguindo a orientação de um rapaz cabeludo e magrelo. Mal descemos e ele nos apresentou a um sujeito que nos ofereceu passeios de buggy ou serviço de guia, para o caso de querermos ir no nosso carro. Ouvimos com atenção, declinamos com cordialidade.
O cabeludo magrelo na cola. Terminada a explanação do parceiro de negócios, nos conduziu à praia, a uma mesa, dentre as mesas coordenadas por ele e o quiosque para o qual trabalhava. Nem tivemos tempo de pensar se queríamos ficar ali ou não. Ficamos.
Havia sol, ao contrário do que a Fernanda queira se lembrar. Ali percebi o único ponto negativo de se alugar um carro. Não podia beber. Pedimos um suco cada um e uma porção de iscas de peixe. Confesso que não me acostumo com essa expressão: isca. Para mim, isca é o que se põe no anzol quando se vai pescar. Por isso, ao pedir uma porção de iscas, sempre acho que vão trazer um prato com minhocas, vermes e pedaços de pão embolorado. Paranoias minhas.
Como o sol estava bom, ao contrário do que a Fernanda queira se lembrar, resolvi entrar na água. Normal, água agradável. Cinco minutos e já estava entediado. Realmente não vejo graça em praia. Voltei para a mesa e a Fernanda perguntou como estava a água. Salgada, respondi com meu ótimo humor de quem adora ficar panguando na beira do mar. Foi a vez dela se molhar. Fiquei na mesa. Peguei a câmera e vi que ela tinha feito umas fotos minha voltando do mar.
Revelação
Chegaram os sucos. Na esteira vieram duas abelhas. Aquele sol, aquela gente irritante amontoada em baixo de guarda-sol, eu tentando evitar que as abelhas morressem afogadas no suco, me sentindo ridículo espantando as abelhas com uma camiseta, agindo entre destemido e precavido e nada da Fernanda sair da água. Puta que pariu, pensei feliz da vida.
Finalmente o amor da minha vida voltou. Bebemos, comemos e contemplamos a praia. Muito instrutivo. Depois fomos ao que me interessava. Andar e conhecer as tais dunas.
Dunas
Viajar é conhecer idiotas que falam outra língua, escreveu Rubem Fonseca. Às vezes concordo. Mas ali, naquele instante, não havia outros idiotas, além de nós mesmos. Só Fernanda e eu, dois idiotas maravilhados com o cenário. E na minha cabeça um dos temas da novela Tieta e o som das cabras e dos sinos das cabras do velho Esteves. Porra, pensei. Que força tem nossa memória afetiva.
Andamos muito por entre as dunas. Depois pegamos uma trilha e voltamos para a praia e para o carro. Já devia ser tarde, pensamos. Quando chegamos no carro percebemos que naquele dia o tempo não corria no seu tempo correto. Dava tempo para mais uma aventura. E que aventura seria.
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Assista e entenda
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