Espaçonaves e aventura
Enxergo basicamente dois tipos de turismo: o preguiçoso e o corajoso. No primeiro, o turista é daquele tipo que paga pelos passeios manjados, city tours, coisa pra inglês ver, cercado de segurança e conforto. No segundo tipo, o sujeito se aventura pela cidade, pega ônibus se for preciso, pede informação, anda a pé, explora, descobre. Nem preciso dizer qual prefiro.
Agora me responda, se você tivesse que abrir um negócio em Natal, qualquer negócio, qual abriria? Pensou em quiosque a beira-mar, passeio de buggy nas dunas, criação de dromedário, hotel, pousada, puteiro? Esqueça. Vá para lá e abra uma gráfica.
No primeiro dia em Natal, Fernanda e eu recebemos um bombardeio de folhetos vendendo passeios de todo tipo. Uma grande variedade de lugares para visitar, duração do passeio, tipo de veículo, atividades “imperdíveis”. Só o que não variava muito eram os preços, todos salgados. Uma coisa que logo descobrimos é que não é em Natal que ficam todas as coisas que vendem como sendo em Natal. Muitas praias, passeios e pontos turísticos ficam fora da cidade, muitas vezes a quase 200km de distância.
Foi por isso que, depois de uma fria análise financeira (somada à nossa disposição em fazer turismo de coragem), decidimos alugar um carro. Por dois dias de aluguel pagaríamos o mesmo valor de um passeio de 2 horas. O carro que nos caiu na mão foi um Gol bolinha branco. Quem me conhece sabe que todo carro que dirijo por algum tempo precisa ter um nome, pois é preciso criar laços de intimidade e cumplicidade com o possante. Mesmo que seja motor 1.000.
A tradição começou com o carro no qual aprendi a dirigir, um Opala 1974, cor marrom, que meu pai possuía. Meu amigo Edinho (o cara com quem aprendi a beber, referência mundial em consumo de cerveja), ao entrar nele pela primeira vez, já com umas “cagibrinas” na cabeça, espantando pelo tamanho do bicho, não teve dúvida: “Isso parece até uma nave espacial, parece a Enterprise. É a Enterprise Caramelo”. O nome pegou e a Enterprise Caramelo nos levou a lugares onde nenhum homem (em sã consciência) teria ido.
Depois da Enterprise Caramelo, vieram outros. Raposa Negra, o gol quadrado preto de meu tio; Briosa Branca, a Brasília branca do pai do Edinho; a Barca do Inferno Celestial, uma Caravan azul do irmão do Edinho, que numa noite especial, lavada, polida e cheirosa se tornou, excepcionalmente, na Barca do Amor; Cavalo de Prata, o Kadet prata do pai do Edinho, o Black Hawnk Down ou apenas Falcão Negro, o Uno preto da Regina.
Por isso, quando sentei no cockpit do Gol branco, não tive dúvida e falei pra Fernanda: “Nega, esse é o Asa Branca. Com ele vamos voar por Natal”. Meti em alto volume um Born To Be Wild, e saí logo pegando um retorno errado pro sentido contrário.
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1 comentários:
Muito loca essas passagens pela vida com muitas cervejas na mente,adorei,só naõ sabia da Barca do Amor,kkkkk,valeu
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