Tapioca e Futebol
Às vezes a Fernanda é mais homem que eu. Calma, não se apressem nas conclusões. Deem tempo ao texto antes de acharem que na intimidade do quarto os papéis se invertam. Não é disso que falo.
Somos corintianos, graças a Deus. Se precisar, quebramos rádios. Porque somos corintianos, maloqueiros e sofredores. A primeira vez que fomos ao estádio juntos ver nosso time jogar, a Fernanda usava uma touca de “cadeeiro” de intimidar tenente da ROTA. Já eu, mais parecia torcedor de numerada, todo clean na envergadura da gloriosa camisa. Isso é só um exemplo.
A minha dileta namorada costuma dizer que tenho pensamento de gordo. Antes fosse só o pensamento e não esta minha barriga que sustenta sua tese. A verdade é que ás vezes faço uma refeição já planejando a próxima. E depois de comer aquela tapioca fiquei seriamente preocupado com as consequências daquilo para nosso apetite na hora de jantar. Não queria abrir mão de um jantar romântico a beira-mar em nossa primeira noite.
Felizmente, Deus criou no corpo humano hormônios e atividades prazerosas que colaboram muito para abrir o apetite. Aliás, li em algum lugar que por Natal estar mais próxima da África, os ventos que vem do mar trazem ares afrodisíacos do outro continente. Talvez seja verdade, porque esses dias todos na cidade... bem, deixa pra lá.
Saímos para jantar. Pela localização do hotel em relação à parte mais badalada de Ponta Negra, isso equivalia a andar todas as noites quase quatro quilômetros entre ida e volta. O que naquele cenário e naquelas noites deliciosas não era nenhum sacrifício.
Depois de passar por alguns restaurantes vazios, achamos um com bom movimento e presumimos que deveria ser um lugar de boa comida. De fato era, mas o movimento se devia à presença de uma grande TV, que transmitiria, dali a instantes, a final da Libertadores da América entre Santos e Peñarol. Um grupo grande de santistas ocupava as mesas mais próximas da TV. Nós nos sentamos mais atrás.
Não sou de secar qualquer time. A exceção é o São Paulo, time pelo qual tenho maior antipatia. Já o Palmeiras não cheira nem fede para mim e o Santos cresci achando um time de coitado, que não ganhava nada. Claro que a seca de títulos do Peixe já passou faz anos, mas em mim prevalece essa impressão de time pequeno. Claro que não o suficiente para ter pena de suas derrotas, mas suficiente para não me importar com sua conquista da Libertadores. Naquela noite, pouco me importava o resultado do jogo. Mas não para a Fernanda.
Fernanda não perdoa. Seca mesmo. Naquela noite, naquilo que deveria ser um jantar romântico, minha doce mulher estava empenhada em secar o time da Vila Belmiro. Ou seja, no papel de corintianos eu fico blasé, ela encardida. Lembrando da touca que ela usou em nossa primeira ida juntos ao estádio, percebi que as vezes ela é mais homem que eu quando o assunto é futebol.
Os santistas da mesa a frente cantavam, incentivavam e ela olhava feio. Entre uma e outra isca de peixe, ela dava cabo de uma caipirinha sem hesitar, enquanto eu ia suave na cerveja. À medida que o álcool visivelmente subia pelas suas bochechas, via ela se irritando com a babação por Neymar. Pensei: se sai um gol do Peñarol fodeu, ela vai gritar e vou ter que dar conta de dar sopapos em uma dúzia de santistas.
Nesse meio tempo, um alívio cômico quase surreal. Ao ouvirmos uma certa gritaria na rua, vimos algo muito divertido. Três rastafáris empurrando, solidariamente, um carro velho, enquanto outro rasta tentava fazer a máquina pegar.
- Porra, Fernanda. É a gang dos jamaicanos vodu, disse eu, lembrando de um filme ruim do Steven Seagal, de 1990.
Naturalmente, ela não entendeu minha referência de filme ruim e logo voltou ao jogo, que terminava o segundo tempo sem gols.
Aproveitei a deixa e pedi a conta. Sugeri que víssemos o segundo tempo no quarto do hotel. Pagamos a conta e fomos embora. Eu temendo que antes de sair, minha já de pilequinho namorada gritasse subitamente: VAI CURINTIA!!!!!! Mas ela se controlou.
Deixamos o jogo pra lá e ficamos pela orla, aproveitando a noite. Quando chegamos, descobrimos o 2 X 1 para o Santos. Ou seja, bastou minha adorável seca-pimenteira deixar de secar que saíram os gols do Santos. Espero que terminemos nossas vidas juntos. Deus me defenda de uma ex-namorada dessas.
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