22 de junho de 2011

Fucking Natal Diary - Parte 2

Avestruz voa?

De mala, cuia e livros, desci na estação Trianon do metro por volta das 20h30. Nosso voo sairia às 23h30. Fernanda - ciosa do custo de seus estudos (que não são baratos) e moça séria que é - não queria perder a aula da Pós-Graduação. Sim, porque ela estuda a sério. Muito diferente deste vagabundo aqui, que costuma ler uma ou duas dúzias de livros sobre algum assunto e já acha que entende do riscado. Combinamos. Ela sairia um pouco mais cedo da aula, eu a encontraria na porta e seguiríamos de táxi até o aeroporto.

Com uma fome grotesca, decidi comer algo no quiosque dentro da estação. Ao analisar as opções de salgados, nenhum parecia seguro. Escolhi o menos amassado e ressecado. Enquanto mastigava a farofa que se formava em minha boca a cada mordida, um sujeito, freguês assíduo do quiosque pela intimidade que demonstrou com as atendentes, passou a examinar as opções. Olhou direto para as coxinhas de frango. A atendente informou, amigavelmente, que estavam ali desde manhã, mas que os folhados ao lado estavam fresquinhos. Ele olhou para ela, olhou para as coxinhas e de novo para ela e disse, passando a mão no estômago e fazendo uma careta sutil: “acho que o folhado vai cair meio pesado, me dá uma coxinha mesmo”.

Segui com minha vida. Já o sujeito da coxinha, duvido que sobreviva até o feriado. Mas não pude deixar de pensar que só um estômago de avestruz aguentaria aquela coxinha, emplastrada por uma fina camada de gordura ressecada. Porém, como dizia minha avó, passarinho que come pedra sabe o cu que tem.

Fernanda, taxi, negociação com motorista, aeroporto. Tudo tranquilo. Como trata-se, inicialmente, de uma viagem de trabalho, nos encontramos com o advogado da empresa. Ele acompanharia a Fernanda no compromisso profissional e retornaria para São Paulo no mesmo dia. Figuraça, esse data venia. Pensa num cara falador. Falava, falava e falava. Não parava de contar histórias. Algumas até cabeludas, de derrubar administração pública. Como o caso do... não, não. Vou guardar o furo jornalístico para depois.

A Fernanda, que já o conhece de outros processos, havia me advertido. Mas até ela estava achando ele falador mais que o normal. Até que ele soltou: “como tive um dia cheio e estava cansado, tomei um energético antes de vir para cá. Tomei um tal de Gladiator”. Não resisti e pensei: “se soltam um leão no saguão do aeroporto, pode deixar que o Máximus “Data Venia” Decimus Meridius aqui mata a bicho. Nem que seja na conversa.”

No aguardo dos “sem mais para o momento”, saguão cheio, filas e filas de check in e aquela boa e costumeira organização aeroportuária brasileira. Enquanto aguardávamos o embarque - e o nobre colega Data Venia falava sem parar - notamos o número do voo: 1802. Com sua sagacidade pós-graduanda, de quem já estudou mais de 4 idiomas, executiva bem sucedida e mulher da mais séria postura, Fernanda solta a análise da fato: “avestruz na cabeça”. Minha mulher tem cada tirada. Mas faço a conexão com o cara da coxinha e me pergunto, com aquele resquício de medo de voar, se isso é bom presságio?

“Avestruz voa?”, pergunto à Fernanda. Ela me olha desconcertada e digo: “deixa pra lá”.

O cagaço de voar, deixei para trás. Depois da primeira experiência, ano passado, quando suei frio na decolagem e aterrissagem tentando lembrar como se rezava Salve Rainha, acho que perdi o medo. Sentamos, Fernanda e eu, umas 8 fileiras atrás do nobre colega advogado. Voo da madrugada, cansaço imenso. Mas voar é chato demais. Se for pela Gol, além de chato, causa vergonha alheia. Aquilo que servem a bordo é constrangedor. Duas bolachinhas e um modesto copo de suco ou refrigerante. Já comi melhores “lanchinhos” internado em hospital público. Fernanda me cutuca e diz: pergunta pra comissária se ela já foi xingada por algum passageiro enquanto servia esse lanche. Já deve ter sido, coitada.

Enquanto isso, nosso nobre colega engatou a conversar com seu vizinho de poltrona. Durante o todo o voo, entre um cochilo e outro, era a voz dele que ouvíamos sem parar. Diria o Filho do Homem, se voltasse hoje: “desaventurados aqueles que com sono em um voo noturno se sentam ao lado do nobre colega data venia.”

Esse mundo é uma piada pronta. Quando o avião finalmente estacionou no aeroporto Augusto Severo, em Natal, sugeri à Fernanda que esperasse o advogado sair da aeronave e se dirigisse ao vizinho de poltrona dele e, em nome da empresa, oferecesse as mais sinceras desculpas pelo inconveniente. Acho que ela não me lavou muito a sério.

Transfer, hotel, banho e poucas horas de sono. Finalmente chegamos. E o dia amanheceu com chuva. Viva a cidade do sol.
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