21 de junho de 2011

Fucking Natal Diary – Parte 1

Sorte


A Fernanda costuma dizer que tenho sorte. Sou obrigado a concordar. Muitas vezes, quando tudo em minha vida dava indícios de que ia ruir, milagrosamente algo aconteceu e me salvou. Meus últimos empregos, por exemplo, vieram na hora certa e por meios inusitados. Talvez até por isso, por confiar nessa sorte, me arrisquei na loucura de largar tudo para correr atrás de sonhos. Mas isso é outra história.

Sempre que perguntam minha religião digo que sou ateu. Não porque o seja de fato, mas digo isso para cortar logo na raiz qualquer princípio de conversa religiosa, bíblica, dogmática ou proselitista. Não tenho a menor paciência para debater religião quando uma das partes se baseia numa fé irracional fundamentada em um único livro (e não em estudos e pesquisas sérias).

Um livro, aliás, cujos editores e revisores desconheço, bem como sua inclinação política, interesses estatais e ligações com o segundo escalão. Nesse caso, desconfio de tudo que leio. Mas, a despeito de meu ceticismo de ateu dissimulado, não é raro que, da minha sorte, digam alguns: é obra de Deus.

Talvez seja. Mas no quesito viagens turísticas minha sorte tem outro nome: Fernanda. E então, quando ela diz que tenho sorte, apenas respondo em tom romântico: minha sorte é você, meu amor. Nessa resposta, cabe, visivelmente, um duplo sentido. Cinismo ou sinceridade?

Para não transformar essa crônica numa melosa, apaixonada e piegas declaração de amor, vou pelo cinismo. A parte da sinceridade fica entre mim e ela. Não interessa a mais ninguém e não precisa de publicidade.

Até os 37 anos de vida, nunca havia saído dos limites do Estado de São Paulo. Minha sorte-Fernanda, que trabalha na Grande Agência de Viagens, possibilitou uma ida a Buenos Aires. Como funcionária, conseguiu nossa estada em um bom hotel e de graça. As passagens aéreas saíram com descontos de mais de 70%. Em uma cordial visita à filial argentina da empresa, apenas para cumprimentar colegas de trato diário, saímos com um show de tango, jantar com vinho a vontade, transfer de ida e volta do hotel para o show e a tranquilidade de no caso de qualquer contratempo nas andanças pela cidade, bastaria ligar para eles. Sorte.

Então, acontece isso. Um compromisso profissional em Natal, na quarta de manhã. No máximo duas horas de trâmites burocráticos. Mas o tempo de voo gira em seis horas. Só voltaria na quarta a noite. Mas quinta é feriado. Impossível não pensar num chororô com chefe.

         - Então, você sabe que vou para Natal semana que vem, certo?
         - Certo.
         - E que quinta da semana que vem é feriado, certo?
         - Hum hum.
- E que não teria como retornar para o trabalho na quarta, pois não é como ir para o Rio de Janeiro, certo?
- Desembucha logo, Fernanda!
- Então tá. Posso emendar o feriado e ficar por lá mais uns dias?
O chefe medita. Recosta-se na cadeira e coça o queixo. É do tipo que gosta de fazer suspense. Acha que assim impõe mais respeito. Mas é bom sujeito, esse chefe.
         - Tudo bem. Pode esticar e voltar na segunda.
         - Tem mais uma coisa – diz ela.
Ele apenas olha, esperando pelo adendo que já imagina qual seja. E ela dispara.
         - Posso levar meu namorado?
Por força do hábito, faz outro suspense. Franze a testa, levanta uma das sobrancelhas, passa a mão no queixo e lança um olhar que diz: você é danadinha, né? E concorda.

Sorte. Viajar baratinho, muito baratinho, é algo que muita gente gostaria. Para um lugar com sol e praia, mais ainda. Especialmente quando São Paulo passa por uns dias meio frios. E eu, que gosto tanto desse frio, vou para o nordeste, sol e praia. Sorte, diz a Fernanda. No que insisto, meloso: minha sorte é você, meu amor.
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