8 de maio de 2011

Rever o Grande Amor

Hoje, te revi.

“É desconcertante rever o grande amor”

Perdi, quando estávamos juntos, a chance de dizer o quanto foste importante para mim. Ao rever-te, lembrei-me de nossa intimidade, dos anos que dividimos uma cumplicidade afetiva, de segredos e equívocos, de tentativas e erros. Lembrei-me de quantas madrugadas passamos juntos, noite adentro te apertando rudemente enquanto cuspia as palavras que eu queria ouvir, mas nem sempre do modo certo. Regressava teu corpo violento quando não me satisfaziam as palavras que de ti saíam. Praguejava, rasurava, recomeçava. Alguns momentos ficava distante, te olhando desconfiado, pensativo, inquirindo-te pelo quanto me inquiria teu silêncio. Silêncios que me doíam. Outras vezes, fazia-me incessante, espancava-te o corpo móvel violentamente tomado por uma onda, uma varredura verborrágica que insistia em se derramar para fora de mim e eu querendo conter tudo em ti, para que não se perdesse de mim nem eu de ti. Se um dia, quietamente, com um indisfarçável sorriso no rosto, te troquei pela tão sonhada possibilidade do “backspace infinito”, não o fiz de ingrato ou por desamor. Nesse abandono de mais de dez anos, nunca te disse o quanto te amei e o quanto foram intensas nossas noites de palavras e espaços, de sonhos e pretensões ainda não realizadas. Não me creias canalha, acredite em minha devoção por ti e pelos anos que comigo compartilhaste a angústia da escrita, o tormento das ideias intraduzíveis. Ao te rever hoje, senti saudade. Te abracei e triste percebi a ferrugem como uma incurável artrite de tuas juntas e dobras e pernas. Talvez um dia volte a ti, como os amantes do passado que se reencontram no final do tempo. Por hoje, fiquemos com a nostalgia de um tempo delicado e difícil, em que ruidosamente conversávamos pelas madrugadas de minha juvenil inspiração romanesca e literária.


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