31 de março de 2011

A Leitura e o Jornalista


Cada vez mais lê-se menos em uma profissão cuja palavra escrita está na base de todo conteúdo.


Para todos os lados que eu volte meus ouvidos e meus olhos, ouço e leio a mesma coisa: queixas e mais queixas quanto ao baixo nível de leitura de jornalistas recém-formados e até de veteranos. É paradoxal que um profissional que viva de escrever se interesse tão pouco em ler. Chega a causar perplexidade.

Não se trata aqui de discutir a importância do hábito da leitura para qualquer pessoa, seja ela profissional de comunicação, ou não. Essa verdade já é mais do que consensual. Trata-se de uma questão de vocação, aptidão ou mesmo interesse. Se, infelizmente, a pessoa não gosta de ler, nunca teve o hábito, por que escolher uma carreira como jornalismo? Da mesma forma que alguém com dificuldade ou ojeriza por cálculos jamais deveria optar por engenharia. É uma questão lógica e óbvia.

Mesmo assim, vê-se em universidades e nas redações jornalistas absolutamente desinteressados pelo mais básico de seu ofício, a leitura diária de jornais. Se formos entrar nos méritos da literatura, seja ela ficcional ou não, a coisa descamba mais ainda. Como esses profissionais pretendem ser capazes de traduzir para um leitor (ouvinte ou espectador) as notícias de forma clara, objetiva, minimamente elegante e interessante se não dispõem de repertório vocabular, se não colecionam diversidade linguística, estilística e narrativa?

Escrever, qualquer pessoa alfabetizada escreve. Mas escrever bem, como é o mínimo que se espera de um jornalista, não é algo que se aprende por osmose. É preciso treino e técnica, artifícios que podem ser ensinados e praticados. Mas esses são ferramentas. E ferramentas sem material para ser trabalhado de nada servem. Não se pode construir uma casa sem tijolos, cimento e areia, mesmo que se tenha enxada, pá, esquadria, martelo e serrote. Da mesma forma, não se escreve bem sem bagagem de leitura, mesmo que se tenha técnica.

Por outro lado, se alguns desses estudantes ou profissionais passarem a ler, mas como uma obrigação penosa, uma tarefa monótona e árdua, melhor que repensem suas vidas profissionais. Melhor que cogitem abandonar a carreira ou os estudos. Se não houver na leitura um prazer mínimo, mesmo quando o assunto não for dos mais entusiásticos, então certamente essa vida não serve. A não ser, é claro, que se aceite desde sempre como nivelação profissional uma carreira abaixo do medíocre e a conformação com uma “submediana” existência dentro da profissão.

No entanto, independente do fim que terão esses não-leitores que deveriam ler, não deixa de ser triste notar, ainda que empiricamente – embora com uma constância quase legitimadora de verdade -, um crescente desinteresse pela leitura. Se já é deprimente que em nossa sociedade um hábito tão importante para a construção da cultura - e também da educação e da cidadania - seja tão desprezado, muito pior quando o mesmo descaso lhe é dispensado por aqueles que mais deveriam exaltá-lo e praticá-lo.
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1 comentários:

Gisele Baciano disse...

Meu caro, esse mundo está muito mais difícil que especulávamos...
Observasse em blogs conceituados e de bom conteúdo, erros terríveis, tanto de continuidade quanto de grafia e gramática.
Isso não passa de um resultado da progressão continuada e a tão afirmada falta de interesse do nosso governo de formar pessoas realmente inteligentes e interessantes...
Enquanto isso, blogs como o seu, de ótimo conteúdo e MUITO bem escritos, passam muitas vezes despercebidos...
Viva a falta de interesse em inteligência do povo brasileiro.