Caro Luiz,
Após ler seu último texto no blog da Cia. das Letras fiquei comovido e mudo. Recorro ao poeta Sebastião da Gama por não encontrar melhor definição de como me senti. Aconteceu ali, entre suas palavras e este leitor, uma rara confluência, na qual a empatia se fez exata e o reconhecimento imediato. Já tem algum tempo que vem crescendo minha admiração por você, indo além da que sempre existiu previamente. Acho sua franqueza, desapego e desarme algo extraordinário, digno de pessoas cuja imensa humildade se equipara à imensa grandeza.
Ao ler seu texto, percebi uma proximidade que já deveria conhecer de muito tempo, leitor costumaz que sou. Uma simbiose de experiência, um amálgama entre a sua experiência vivida e a minha lida. Quando falou do olhar triste da mulher, das esculturas de toalhas no hotel, percebi que aquelas visões, lembranças e sensações não eram só suas, eram minhas também. Diferentes, traduzidas, filtradas ou reformuladas pela literatura, não importa. A essência sempre permanece.
Já lhe falei disso antes, mas vou reforçar. Há alguns anos atrás, quando me deparei com seu livro, “Discurso Sobre o Capim”, na estante da livraria, duvidei. Pensei comigo - desdém e inveja - que para o dono era fácil, bastava mandar. Comprei para comprovar e paguei minha maledicência e aleivosia íntimas. Gostei demais e fiquei rendido. Li duas vezes e guardei comigo alguns daqueles personagens com o mesmo carinho e afeto com que trago em mim a família Buendía, o desvario de Bentinho, o amor de Maria de Magdala, o desacerto de Raskolnikov, o pecado de André e Ana, as aventuras de Xisto.
Bastaria isso para lhe ser grato. Pela experiência de histórias tão simples quanto delicadas. Agora, com o que escreveu no blog, a gratidão se expande. Entender como alguns desses personagens surgiram e, principalmente, perceber sua desafetação no trato consigo mesmo, essa franqueza desarmada de confessar sem ter pejo coisas tão íntimas, dividi-las com seu leitores, é algo que me comove e emudece. É algo que aproxima e humaniza.
Melhor assim. Que o que era totem, de admiração e respeito, seja hoje humano como eu. Não diminui em nada a grandeza com que ainda admiro alguém que fez tanto pelo que mais amo na vida, os livros e a literatura. Ao contrário, engrandece, dignifica e irmana-se comigo aquele que ama como eu amo: ler o que seja bom de se ler. E agora, também como eu, escreve o que é bom que se escreva. Sem ressalvas.
No dia da abertura da exposição “A Consistência do Sonho”, eu, intruso, vi-me a seu lado. Pensei em brincar, tocar em seu ombro, muito acima do meu, e dizer: guarde meu rosto, um dia me publicará. Achei que seria inconveniente e desisti da brincadeira. Melhor que siga com meus contos em segredo e um dia os lance à sorte de editores. Mas se naquele dia o que estava a meu lado era um ícone inalcançável e insondável, hoje é também um amigo. Não pelos laços corriqueiros da amizade convivida, mas pela irmanação que a literatura e o sentimento comum podem criar. Diferente do usual, recíproco no sentimento, esta é unilateral, certamente. Mas, ao menos para mim, de um conforto e carinho imensos.
Obrigado, amigo.
Rogério de Moraes
--
Links:
Links:
0 comentários:
Postar um comentário