16 de dezembro de 2010

Dividir o Pouco


O conhecimento é algo ininterrupto. Tudo que li e aprendi em minha vida é nada comparado ao quanto ainda há para ler e aprender.

Escrever aqui ou nos outros espaços onde escrevo, não serve apenas a uma vaidade auto-congratulatória - que reconheço como força motriz de minha escrita e da mesma forma na escrita de quase todos que o fazem. Mas também em algo que acredito de verdade, que é o compartilhamento de conhecimento.

Todas as pessoas sabem de algo que outros não sabem. Desde o humilde pedreiro que sabe muito mais do que eu sobre como erguer uma casa “onde antes só havia chão”, até, naturalmente, o PhD em física quântica. Eu adoraria ler um blog de pedreiro. Ler sobre fazer a massa, assentar tijolos, rebocar paredes, fazer uma coluna. É um conhecimento que não tenho e como conhecimento seria ótimo adquiri-lo.

Assim, acredito realmente que ao publicar nos meus blogs um pouco do pouco que aprendi estou exercendo uma utilidade, compartilhando conhecimento. E não é uma visão redundante minha. Em um curso de pós-graduação, alguns professores incentivam insistentemente seus alunos a criarem blogs e dividirem o conhecimento que estão adquirindo no curso. Este conhecimento não deve mais ficar restrito a uma elite acadêmica, quase toda ela presa a um academicismo hermético e pedante. Morrer com esse conhecimento não serve de nada.

Eu mesmo, quando coloquei no ar meu primeiro blog, o Base233, o fiz movido pela vontade não apenas de compartilhar conhecimento, mas de adquirir perspectiva através do debate e troca da idéias. Tinha na época uma pura ingenuidade, pois achava que a cada postagem, a caixa de comentários se tornaria um micro-fórum de troca de idéias, onde os leitores do meu blog e eu conversaríamos, discordaríamos e debateríamos. Só esqueci de combinar com o resto do mundo para que me lessem, e quando lessem, comentassem.

Hoje, 9 anos após meu primeiro blog, já não sou tão ingênuo. Sei que poucos me lêem e desses ninguém se anima a conversar. Mas mesmo assim, insisto. Não pela ilusão inicial de um debate e troca de idéias, mas pela esperança, talvez não menos ingênua, de que o pouco que aprendi nos livros e na vida possa servir para outros, se não de forma prática, ao menos para acrescentar algo ao conhecimento de alguém.

Não sou nenhum senhor do conhecimento e da sabedoria. Não sou professor e sempre fugi, nem sempre com sucesso, de um tom professoral em meus textos. Mas não posso me esconder do que sou e do que me melhor me define que é o tesão de aprender.

Se há em tudo que escrevo minha dose humana de vaidade, não deixa de ter também minha dose, não menos humana, de desapego e desejo de dividir o pouco que aprendi. Seria ótimo se mais gente o fizesse.

12 de dezembro de 2010

Memória

Conclusão depois da última aula sobre a história e evoluçaõ do cinema: alguém precisa com urgência resgatar e publicar a história e as obras da Boca do Lixo em São Paulo. Ainda tem gente viva com história pra contar. Essa porcaria de país pracisa de mais memória e não é daquelas que se compram na Sta. Efigênia, mas nesse caso, daquelas que podem ser encontradas na rua do Triunfo.

País de merda sem memória. Cuspo na sua ignorância autosustentável.

9 de dezembro de 2010

Revelado

Documento revelado no Wikileaks comprova que Rogério de Moraes não acertou questões suficientes na última prova de matemática da 8ª Série. 

Uma cópia da prova mimeografada pela professora Maria José, vazada dos arquivos do E.E.P.G. Província de Nagasaki, mostra que o blogueiro-quase-escritor-e-meio-crítico-de-cinema Rogério de Moraes obteve nota C, apesar de ter errado 4 das 5 questões da prova e ter acertado só metade das última. Era sua 4ª tentativa de sair da 8ª série e para isso contou com a complacência de sua professora, que disse ao corrigir a prova: Vai Rogério! Ser gauche na vida.

6 de dezembro de 2010

Aula de Sábado

Entrei na sala e estavam testando o som para a aula. Na tela, um filme em preto e branco, um enquadramento fechado dos rostos de um jovem casal. Chutei que era um filme do Cassavetes, mas não tive certeza. 

Ela: "Por que você está sempre de óculos escuros?"
Ele: "Porque estou de luto. Amo minha pátria, mas não sou correspondido". 

Depois esqueci-me de perguntar qual era o filme. Afinal, um dia tão recheado de belas cenas do cinema japonês, deixa a gente suspenso no ar. Talvez nunca saiba que filme era aquele, talvez nunca o assista. Mas levarei sempre comigo a lembrança de entrar naquela sala de cinema, de ver aquele pequeno trecho de um filme desconhecido e de ficar tão encantando com algo tão breve. O cinema é uma coisa incrível.

5 de dezembro de 2010

Negação

Não sou cinéfilo. Gosto de filmes e só. Escrevo sobre eles, ocasionalmente. Não sou crítico de cinema. Nego este rótulo com o desprezo pelo rótulo que existe apenas para ser rótulo. Na mesma medida admiro, respeito e reverencio a crítica de cinema. Só não a quero como um rótulo simplificador, reducionista e impregnado de um sentido equivocado de má compreensão de seu exercício.

Escrevo sobre cinema, amo Fellini e Aurora, de Murnau. Essa definição basta para definir com precisão e alcance o que um rótulo não poderia.

Mas inquiro-me sobre isso. Por que escrevo?

Escrevo para além do cinema. Escrevo, antes, porque na escrita guardo minha existência, que por si só já seria pueril. Com a adição da escrita como preservação, tradução, manipulação, dissimulação e banalidade, esta existência ganha não mais que uma pecha de peuril-literária. Não é nada para o mundo, mas é tudo para mim.

Escrever sou eu. Escrever sou. Escrevo.

Há mais, é claro. Sempre há mais, muito mais.  Por hora, no entanto, é o que interessa. Ou nem isso.

Mas cinema? Escrever sobre cinema. Por que?

Sem rodeios, por ordem crescente:

1.       Vaidade;
2.       Exibicionismo;
3.       Exercício;
4.       Introspecção;
5.       Prazer;
6.       Compartilhamento.

São essas minhas motivações para escrever sobre cinema. E o que escrevo não tem qualquer utilidade para o mundo, nem para o cinema, nem para a crítica. É inútil. Nesta constatação sem soberba não há desistência, rendição, desolação ou tristeza. É algo simples, que se descobre cedo ou tarde, quase sempre por uma epifania ou duas; como as três que tive hoje: uma declaração de João Moreira Salles que li logo de manhã, uma breve discussão na aula de história do cinema à tarde e algumas declarações de José Saramago no filme José e Pilar que vi à noite.

Percebi o inútil de tudo sem drama, sem vaidade, sem dor e sem tolices existencialistas. O que é apenas é. Inútil, note-se bem, mas não irrelevante.

Nada é irrelevante e tudo é irrelevante. Óbvio, percebo. Mas não óbvio o suficiente, nem óbvio o tempo todo.

Escrevo pela possibilidade de na escrita encontrar outro eu e no filme outro filme. Dessa possibilidade filosófica, metafísica, subjetiva e falsamente pomposa advém a relevância de tudo que se escreve, e inerente á isso sua inutilidade indissolúvel.

Uma hora de trabalho de um motorista de ônibus é mais importante que toda literatura do mundo.

Não há muito mais o que dizer. Tudo que vier depois será tergiversação. Exceto acrescentar que numa concepção em que nada do que já foi escrito importa de fato ao mundo, cada desimportância escrita um dia e vivente na sua mais profunda insignificância universal se torna por conseqüência a realização do todo, guardando e preservando para si uma importância tão universal quanto sua inutilidade. Perene, única, indestrutível.

Escrevo sobre cinema porque isso não importa. E por isso é importante.
Agatha ou as Leituras Ilimitadas


Agatha ou as Leituras Ilimitadas é um filme que busca uma desvirtuação do cinema enquanto linguagem imagética, uma experiência de aproximá-lo da literatura com uma radicalização na forma. Forma esta que ressalta, em primeiríssimo plano, o texto e a palavra. É, a exemplo deHiroshima, Meu Amor, a dialética subterrânea do sentimento, agravada neste caso pela imoralidade do desejo proibido. Na íntegra, clique aqui.