Buenos Fucking Aires em Capítulos – Parte 7
chegaram os trombadinhas
O psicológico manda. Depois da advertência enfatizada da guia que nos recebeu no hotel sobre trombadinhas e vigaristas, ficamos tensos. Nada de relaxar na rua, ficar atento do mesmo jeito que fico quando ando pela Praça da Sé, pela região da Luz e outros lugares aqui de São Paulo. Se algum trombadinha portenho, hijo de puta madre, boludo, vier levar uma vai tomar uns catiripapos. Tava pronto para dar pernada a 3x4 em qualquer folgado argentino.
Depois do city tour fomos ao hotel, pegamos algum dinheiro mais e saímos à rua para almoçar e andar mais pela cidade desconhecida. Tínhamos apenas dois destinos obrigatórios naquele dia: visitar a filial da Grande Agência de Viagem na rua Florida e conhecer a livraria El Ateneo.
No primeiro caso seria apenas questão de cordialidade, já que o pessoal de lá, quando soube que Fernanda iria à cidade, se mostrou muito solícito para qualquer ajuda, nos dando seus respectivos telefones particulares para qualquer eventualidade. O que, desde o início, nos tranqüilizou bastante. No segundo caso era uma questão obrigatória para nós, pois apaixonados que sempre fomos pelos livros e, nos últimos anos, em especial pela literatura latino-americana, não poderíamos passar por Buenos Aires sem conhecer aquela incrível livraria.
Na filial da Grande Agência fomos recebidos com imensa cordialidade e simpatia. A tal ponto de sairmos de lá com uma inesperada e grata surpresa, que contarei mais tarde.
De volta à rua Florida, sabíamos que tínhamos que achar a rua Santa Fé, onde fica a livraria El Ateneo, no numero 1860. Vendo agora no Google Mapas vejo que a distância percorrida foi de 4,3km. Andamos, andamos, andamos e num determinado ponto, numa esquina, paramos para consultar o mapa e ter certeza que estávamos na direção certa. Foi um dos meus raros momentos de distração e bastou isso.
Com ambos imersos no mapa, esquecemos de ficar atentos ao redor. Foi quando senti uma forte trombada nas minhas costas, onde estava minha mochila. Tão forte que quase me derrubou. Imediatamente a adrenalina foi ativada e eu me preparei para correr atrás de um puto portenho. Pensei assustado: chegaram, finalmente chegaram os trombadinhas, vão invadir tudo, é um arrastão, socorre que hoje eu mato um.
Pronto para desferir um mortal soco com meus punhos de aço treinados no mosteiro Shaolin da minha fértil imaginação de criança... me deparo com um senhor de óculos escuro (em dia de chuva?!) e com uma bengala na mão. Das duas uma, ou aquela é uma cidade onde até o cegos são trombadinhas, ou simplesmente o pobre homem em sua escuridão eterna deu com dois turistas perdidos no meio do seu caminho.
O pobre cego se desculpou pelo acidente e seguiu seu rumo. Fernanda eu nos recompomos, recuperamos nossas pernas, que no susto tinham-se ido sem a gente, e rimos nervosos do incidente. Depois disso acho até que relaxamos e desencanamos dos trombadinhas. E rimos muito do susto que tomamos.
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