Buenos Fucking Aires em Capítulos – Parte 2
trombadinhas y vigaristas
Ser namorado do Fernanda é bom negócio. Não só por ser ela uma mulher extraordinária em todos os sentidos (e, acreditem, os sentidos podem ser muito prazerosos), ainda viajamos de graça com certas regalias. Como nunca viajei, tampouco sabia como são as regalias de se comprar um pacote turístico. Coisas que desconheço, mistérios de se ter dinheiro. Ter ganho este pacote foi um aprendizado.
Transfer para o hotel. Sempre que a Fernanda, com seus jargões do turismo, me fala em transfer, digo a ela que transfer eram aqueles desenhos que se comprava antigamente em papelarias ou mesmo bancas de jornais e que serviam para estampar camisetas, utilizando-se água e um ferro quente de passar roupas. Mas, vá lá, transfer. Sujeito na área de desembarque do aeroporto, papel na mão com seu nome ou nome a agência pela qual você viaja. Simpático, ajuda nas malas, te leva ao carro e te deixa no hotel.
A primeira impressão de Buenos Aires ao sair do Aeroparque, onde desembarcamos, foi a chuva e o mar arisco. Exceto que o que víamos não era o mar e sim um rio. O Rio da Prata em sua faixa mais estreita tem cerca de 42 quilômetros de uma margem a outra. O que significa que se eu fosse Jesus Cristo, dava para cruzá-lo correndo uma maratona. Já nas faixas mais largas chega a 200 km, aí, sendo eu Jesus, seria um Ultra-Iron Man para cruzá-lo correndo. Nesse caso talvez fosse necessário montar uma equipe de revezamento, tipo Santíssima Trindade, com cada um correndo um trecho. Ok, me dispersei.
Confesso que demorou pra cair minha ficha de que aquilo era um rio, não o mar. Quem mandou eu não fazer os mapas que a professora Graça pedia na quinta série? Se tivesse feito não teria tanta dificuldade pra entender o óbvio da geografia latino-americana.
No hotel nos esperava uma pessoa, que nos passaria algumas instruções básicas sobre a cidade, nos entregaria um mapa e nos instruiria como proceder em certas situações, como a maneira de fazer ligações internacionais e encontrar abrigos nucleares para o caso de guerra atômica. Nunca se sabe. Simpática, prestativa, nos deixou seus telefones para qualquer emergência, 24hs disponíveis. Indicou onde fazer comprar, quais bairros evitar, quais visitar e como trocar dinheiro. Nos deu, enfim, segurança, certo? Não.
A mulher era alarmista. Muito alarmista. O que, depois de pensar, fazia parte do seu papel, pois é bom exagerar nas recomendações para evitar transtornos depois. Melhor para ela e para a Grande Agência que os turistas sejam exageradamente alarmados sobre certas coisas para que se evite transtornos depois. Afinal, no mundo o que mais tem é gente sem noção e turista é uma classe especialista em ser sem noção, pelo simples fato de ser... turista.
Mas ficou caricata e já virou anedota entre mim e Fernanda a frase categórica que a guia nos disse, logo de cara, ao nos prevenir contra roubos e trambiques. Disse textualmente: “esta é uma cidade de trombadinhas e vigaristas. Os vigaristas são os taxistas e os trombadinhas são todos os demais.”
No fim de 3 dias não achamos nada disso. Mas tomamos um puta susto ao parar numa esquina para ver o mapa. Conto depois.
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