4 de setembro de 2010

Buenos Fucking Aires em Capítulos – Parte 1

avião... jacarezinho... cuidado com o disco voador

Na vida é preciso se fuder para aprender certas coisas. Como a empáfia. Nunca antes na história desse pobre escritor houve uma viagem de avião. Mesmo assim, enchia a boca para falar mal de quem tinha medo de voar. Afinal, estamos no século XXI, é preciso confiar na tecnologia. E eu, de fato, confio. Mas quem disse que nosso centro racional, o cérebro, é de fato racional?

Como o vôo era curto, o avião era pequeno. Bastou pisar dentro, ver aquele claustrofóbico espaço e a coisa pegou. Claro, nada de pânico que não sou frouxo, nem fresco. Mas um mal disfarçado desconforto passou a ocupar minha expressão. Nervosismo, mãos suando. Cintos apertados, bien venidos, welcome, aqui fala o comandante, security instrucions e sua cabeça repassa, em detalhes, todos os episódios de desastres aéreos que o Discovery Channel e o History Channel fizeram o favor de te mostrar. E a Fernanda lá, tranqüila.

Taxia, vai para ponta da pista e arranca. No fundo da minha ignorância, esperava algo mais brusco, tipo brinquedo do playcenter. Foi suave. Quando vi era só nuvens. E algumas lombadas, que lá em cima eles chamam de turbulência. De vez em quando muda-se o regime do giro da turbina, muda o som, tipo uma reduzida. Olho desconfiado pela janela. Nada de fumaça. Em algumas espiadelas pela mesma janela tenho a impressão de ver um duende leprechau sentado na asa. Mas desencano. O resto é chato pra burro. Nada pra fazer, nada pra ver lá fora. Então era isso? Puta bagulho chato.

Menos de 3 horas depois estamos sobre Buenos Aires.

Aí começam os procedimentos para descer. Novamente cinto, desliga tudo, celular, notebook, estamos chegando. E o cara lá da frente fala enrolado em espanhol e inglês e eu só pesco duas palavras em cada idioma: tormenta e storm. O bicho ta pegando por baixo daquele monte de algodão. Vamos pousar sob chuva. Vira pra um lado, inclina pra outro e nada de descer. Depois informa de novo que vai demorar uns 45 minutos fazendo um “H” lá em cima porque o tempo não está bom pra descer. A Fernanda me olha. Tudo bem? Sim, tudo bem, minto.

Inclina pra um lado, inclina pra outro. Agora vai. O bicho se joga na chuva. Treme tudo, balança, ai meu Deus. E nada de aparecer a cidade lá embaixo e continua descendo e tudo cinza na janela e o avião tremendo. Olho pra a fileira do lado e uma senhora lê tranqüilamente o jornal. Fico indignado. Eu aqui tentando lembrar como se reza o Salve Rainha e a mulher tranqüila lendo o jornal. E eu que me achava blasé. Finalmente terra por baixo das nuvens, mas tudo fechado, cinza, chuva. Primeira visão de Buenos Aires. Faz mais uma curva e vai, cabeceira da pista, vai chegando, o chão crescendo, a chuva escorrendo pelo vidro da escotilha. Pousa. Mais uma vez, na minha ignorância, foi mais suave do que pensava. Reduz, taxia, respiro.

No final, peço só um último favor para a aeromoça, digo, comissária de bordo: se ela poderia procurar minhas pernas pelo avião, pois eu não as estava sentindo. O resto foi tranqüilo. E na volta para casa já estava blasé de novo. Nesse intermezzo entre um vôo e outro, Buenos Aires e a chuva. Vou contando aos poucos. Esse foi só o começo.

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