10 de setembro de 2006

O Sétimo Selo

Em O Sétimo Selo, Bergman concentra seu foco existencialista na questão da fé. Através da jornada de retorno para casa, seu protagonista se vê frente a frente com a morte de duas formas: pela devastação de sua terra e pela vinda da própria, em pessoa, no seu encalço. Diante desse retorno para casa, difícil e cheio de obstáculos, impossível não pensar no mito de Ulisses e de Ítaca, sua terra. Como o herói do clássico ocidental, o herói de Bergman também obstina rever a esposa e retomar seu lar, mas as semelhanças param por aí (não sem deixar um gancho para uma instigante análise arquetípica, que ficará para outro dia).

Na história, Antonius Block (Max Von Sydow) é um cavaleiro que retorna após 10 anos, depois de lutar nas cruzadas (onde foi lutar por Deus e pela fé cristã). Logo ao chegar é abordado pela Morte, que veio lhe dizer que seu tempo acabara e que viera buscá-lo. Ardiloso, convida a Morte para uma partida de xadrez, mesmo sabendo que ela nunca perde. Assim, consegue ganhar algum tempo e adiar sua ida para o outro lado. É enquanto a partida se desenrola - com intervalos indefinidos, pois a Morte andava ocupada naqueles tempos - que Block segue seu caminho rumo ao lar. E é nessa caminhada, entre um lance e outro de xadrez, que ele constata a devastação pela qual passa sua terra, afligida pela Peste Negra.

Surgem então as questões primordiais que darão a profundidade do personagem, pois é em sua fé que ele passa a questionar a existência de Deus. Assim, mais do que voltar para casa, Block procura por respostas às suas indagações. Quer saber onde está Deus e, até, onde está o diabo, pois "o diabo deve conhecer Deus como ninguém". Em busca dessas respostas, o herói bergmaniano de O Sétimo Selo enfrenta-se com todas as coisas e a tudo questiona, sempre sob a ótica da fé.

O filme é rico em figuras e símbolos, muitas vezes irônicos, outras vezes sutis. Com a Peste Negra se espalhando rapidamente e dizimando a população, surgem figuras bizarras, como os que se auto-flagelam em busca da rendição de seus pecados, além daqueles que, tão usualmente na época, queimam mulheres suspeitas de bruxaria. Mas a certeza coletiva é de que se aproxima o dia do Juízo Final, que o sétimo selo em breve será aberto e os anjos receberão suas trombetas. É esse clima de fim do mundo umas das coisas que mais impressionam na obra, pois é onde o mitológico se torna quase palpável e transcende da tela para o espectador.

Também as figuras de Antonuis Block e seu escudeiro, Jöns (Gunnar Björnstrand), trazem uma dualidade irônica e profunda, quase simbiótica em alguns momentos. Enquanto Block vive no espírito a intangível e incurável angustia de sua fé, que se afirma mais nítida no seu questionamento de Deus - "A fé é uma aflição dolorosa. É como amar alguém que está sempre no escuro e nunca vem quando chamamos." -, Jöns é um cético e incrédulo que crê apenas no vazio e por isso mesmo não sofre, nem se aflige.

É assim que seguem, junto a outros personagens de diversas matizes, todos tementes ao juízo final e à Morte, cada um com seus semblantes revelando a maneira como encaram ou não a compreensão dos desígnios de Deus.

Contudo, é no final que a inexorabilidade do destino e do tempo se revela inquebrantável e imutável. Em uma seqüência antológica, todos se vêem diante de seus destinos e o encaram com suas próprias palavras e gestos. É quando presumimos que todas as repostas que Block buscava estavam justamente na figura da qual tentava se desvencilhar o máximo possível. Mas é a própria Morte quem diz diante do relutante Antonius na sua hora final: "eu não sei nada". Sem responder com clareza se o que vem depois é mesmo o vazio, como crê Jöns, Bergman nos dá, ao final de seu filme, a deixa de que talvez o mais importante não seja onde está a morte, mas sim onde está a vida. Um filme memorável.
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O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet)
Dir.: Ingmar Bergman
Suécia, 1956
100 min.

1 comentários:

Érico Bronislawski disse...

Esse filme é maravilhoso.
A frase que mais gosto é: Por que não consigo arrancar Deus de dentro de mim?
A situação dele é complicada, uma vida matando em nome de um Deus que ele questiona a existência. Afinal, se lutou tantos anos, será que sua vida foi em vão? Suas suplicas parecem implorar pela existencia de algo, que de sentido a sua vida.

Genial

 
 
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